Desistências e número de participantes nas 24 Horas de Le Mans
Criada em
mil novecentos e vinte e três a prova que ficou célebre com a designação de 24
Horas de Le Mans desde cedo atraíu um número muito apreciável de
participantes.
A partir
dos anos cinquenta, esse número já antes bastante elevado, superou quase sempre
os cinquenta. No entanto, a dureza da prova teve sempre como
contrapartida um número de carros muito inferior, no final. O esforço
a que os órgãos mecânicos são submetidos e as peripécias climáticas e humanas
que agravam as dificuldades à medida que as horas vão passando, têm como corolário o desaparecimento ao longo da prova de grande parte dos
competidores.
Uma
rápida análise sobre algumas das edições realizadas entre mil
novecentos e cinquenta e três, e o ano de dois mil e dezasseis, se nos permitem
desmontar alguns dos mitos que a névoa do passado por vezes lança sobre os
feitos de pilotos e máquinas obrigam-nos a avaliar melhor, por outro,
os progressos que a indústria
automóvel tem conseguido ao longo de décadas de evolução.
Até 1955 era frequente existirem
sessenta carros à partida da prova o que deixou de acontecer em 1956, ano em
que só partiram quarenta e nove carros, certamente como reflexo e consequência
do grande acidente de 1955. Ao longo dos anos
cinquenta e até 1964 o número de carros que concluiu nunca foi inferior
a treze nem superior a vinte e nove sendo frequente uma média de vinte
carros à chegada o que se pode considerar um excelente índice de resistência
mas também um sinal de que a prova se realizou ao longo de vários anos quase sempre num ritmo muito
moderado de poupança e gestão das mecânicas.
A partir de 1965, no entanto, o ritmo da prova tornou-se mais exigente até pela entrada da Ford na cena do campeonato mundial de marcas, desafiando a dominadora Ferrari, tendo então a velocidade média aumentado e levando a que o número de carros que terminava habitualmente baixasse acentuadamente. Assim entre 1965 e 1972 nunca o número de carros a terminar foi igual a vinte ficando-se quase sempre por uma média de catorze a dezasseis.
A partir de 1965, no entanto, o ritmo da prova tornou-se mais exigente até pela entrada da Ford na cena do campeonato mundial de marcas, desafiando a dominadora Ferrari, tendo então a velocidade média aumentado e levando a que o número de carros que terminava habitualmente baixasse acentuadamente. Assim entre 1965 e 1972 nunca o número de carros a terminar foi igual a vinte ficando-se quase sempre por uma média de catorze a dezasseis.
Uma explicação possível é que tal mudança de ritmo poderá terá ocorrido devido à dificuldade em conjugar resistência e
velocidade nesses anos finais de sessenta e princípios de setenta quando a competitividade aumentou e o número de carros inscritos para apoiar as ambições de ambas as marcas, aumentou também. A arquitetura dos motores e
chassis não aguentaria o ritmo elevado das corridas e foi em 1970 que se
verificou o número mais baixo de competidores a terminar a prova com apenas
sete carros à chegada num ano em que a chuva foi também protagonista dificultando
muito a tarefa dos participantes. A partir dos anos setenta, a resistência
melhorou e começou a tornar-se frequente até ao ano de 2002 terminarem mais de
vinte carros novamente. A partir do ano dois mil, podemos dizer que tornou-se
frequente atingirem o final da prova mais do que vinte e cinco automóveis e a
partir de dois mil e oito tornou-se frequente terminarem a prova mais de trinta
e três carros. Em dois mil e dezasseis, presente ano, esse número subiu para um
recorde de quarenta e quatro competidores à chegada.
Com a ajuda do site http://www.racingsportscars.com/, fomos mais longe.
Procurámos dados sobre números de desistentes em três categorias de análise: desistências por quebra de motor, por quebra de transmissão e por acidentes em diferentes edições da prova, espaçadas suficientemente para constituírem uma amostra alongada no tempo.
Concluímos que as desistências por quebra de motor reduziram-se de forma notável no espaço de quase sessenta anos.
Se em 1953, aconteceram dezanove desistências por anomalia do motor, entre sessenta carros à partida, no ano de 2016 apenas se verificaram três por esse motivo, também entre sessenta carros à partida.
As desistências por quebra de órgãos de transmissão foram as que mais se reduziram. Em 2016, nenhuma desistência aconteceu diretamente por essa razão enquanto em 1953 aconteceram cinco, em 1964 aconteceram nove (!!!) e em 1975 e 1985 foram apenas duas, baixando para uma, apenas, em 2003. Concluindo, desde meados dos anos setenta as caixas de velocidades, embraiagens e restantes órgãos de transmissão tornaram-se bastante resistentes e aguentam os esforços exigidos em condições de corrida pelas unidades motoras.
Quanto ao item
acidentes, é o mais estável. Desistiram por acidente cinco viaturas em 1953 (um
deles mortal, o de Tommy Cole) e em 2016 aconteceram seis desistências por
acidente enquanto nos anos intermédios de 1975 foram três apenas e em 1985,
foram quatro, as desistências por acidente. Não é difícil concluir que a
resistência dos motores permite atualmente provas muito mais rápidas, corridas
muito mais movimentadas (a média de prova em 2016 foi de 218 Km/h igual à de
1967 (quando a pista ainda não tinha as cinco chicanes que tem atualmente) e
sem dúvida muito maior número de carros em pista ao longo de vinte e quatro horas,
o que permite um espetáculo competitivo de muito maior qualidade do que
acontecia noutras épocas.
Com tais evidências, cai a
velha máxima tão gasta mas apregoada, de que "antigamente é que era bom
material". Não era de facto tão bom quanto é hoje.
Esta análise poderá ser talvez superficial, na opinião de alguns.
Hoje em dia trocam-se turbos ou caixas de velocidades em vinte minutos e não há
quase nada que não se mude nas boxes para levar os carros até ao fim.
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